Enquanto isso, na Liga da Justiça… Reflexões sobre o Nexus Global Summit 2025

“Teremos sucesso se todos aqui nessa sala saírem de 2025 com menos dinheiro do que entraram.” 

Essa foi uma das frases impactantes dentre muitas no Nexus Global Summit NYC, proferida por uma mulher estadunidense branca com cerca de 40 anos de idade, filantropa e gestora de um Family Office com um fundo filantrópico. Estávamos discutindo os impactos dos cortes de verba do USAID, talvez o maior fundo governamental de apoio humanitário no mundo, e o que esse grupo pode fazer para mitigar os danos da falta de dinheiro para milhares de projetos.

Foram 4 dias ultra intensos como se eu tivesse sido catapultada para uma realidade paralela. Lembra dos desenhos animados e HQs da Liga da Justiça? Pois em vários momentos senti que cocriamos o mesmo espírito. Super heróis e heroínas do mundo inteiro reunidos com a mesma causa: sermos agentes de transformação para um mundo melhor.

Visitamos uma galeria de arte de uma família filantropa (Brandt Foundation), o escritório da Blue Meridian (Family Office dedicado à filantropia e blended finance), o escritório de estratégia global da IBM, tivemos uma sessão na ONU, encontro com a delegação brasileira (que era grande e brilhando um grupo de jovens da OSC Turma do Jiló com cerca de 12 e 13 anos de idade) e depois palestras na plenária e sessões mais intimistas, cada uma mais interessante que a outra. 

Senti uma overdose de endorfina e serotonina com tantas histórias inspiradoras, com tanta gente privilegiada, disponível para sair da zona de conforto e dedicando suas vidas para fazer a diferença de verdade no mundo. Chorei, ri aplaudi, abracei e conversei até cansar. (Quem me conhece sabe que gosto de uma conversa, então para ficar cansada imagina o tanto de trocas!) 

Participaram cerca de 600 pessoas de 50 países diferentes, interessados em filantropia, investimento de impacto e ativismo socioambiental. Atenção: toda a alimentação do evento (deliciosa!) foi 100% vegana e zero glúten. Um show de coerência.

Nexus é uma organização de amplitude global e o evento anual é sediado em NYC, onde nasceu o movimento que forma uma rede poderosa de filantropos que eleva a inteligência da filantropia e sua ação global, assim como vejo o Synergos Foundation também agindo.

Algumas reflexões:
É notória a diferença entre a cultura de doação em países como Australia, Estados Unidos e Inglaterra em comparação com o Brasil. Hoje a filantropia no mundo tem inteligência estratégica, conexão espiritual e tecnologia. Agir local e escalar as soluções está em todas as narrativas. Saiu de um lugar assistencialista e minimizador de culpa para a ação movida pelo propósito de vivermos todos num mundo melhor. Porque não adianta nada eu estar na máxima segurança e conforto, gozando dos meus privilégios brancos de elite que tem escolha para fazer o que quer, enquanto tem seres humanos e não humanos em sofrimento por estarem privados de atender suas necessidades básicas. 

A filantropia precisa combater o sistema e não somente “enxugar o gelo” da miséria causada pelo patriarcado que domina e explora tudo o que é vivo. Inclusive, “sistema” esse que originou e mantém as fortunas acumuladas. É sobre criarmos uma consciência reconectada com a natureza de modo que nossos projetos estejam à serviço da renovação da humanidade integrada com a biodiversidade.

E para sair do ego para o eco é preciso ressiginicar tudo… todas as crenças da sociedade que herdamos e não precisamos perpetuar. 

Uso meu privilégio socioeconômico para criar um mundo novo. Esse é meu mantra! Assim, “poder” é construir a realidade sonhada onde todos os seres são contemplados.

E para sair do patriarcado falido, resolvemos no Instituto Terra Luminous nomear o novo sistema de “naturarcado”, em que as leis sociais se espelham e se inspiram nas leis da natureza. E para isso é preciso ressignificar nossas relações afetivas, com a terra e com o dinheiro. Eu sempre digo que ser milionária agora significa influenciar para a Cultura Regenerativa mais de um milhão de pessoas.

Senti que no evento os Estados Unidos é o epicentro, ainda que iniciativas maravilhosas e super bem sucedidas aconteçam no Afeganistão, Sudão e vários países africanos, Índia, Equador, Mexico, Brasil, muita atenção foi dedicada durante o evento para o tema de IA (Inteligência Artificial). 

Percebi que a filantropia estadunidense está bem focada nos programas sociais, compensando o gap do atendimento público e provendo saúde, educação superior, advocacy em políticas públicas e suporte para pequenos empreendedores. Entranhei que não surgiu menção a projetos com abordagem socioambiental.

Prince Harry, duque de Sussex fez uma fala bem tocante sobre propósito de vida e como ele por meio da psicoterapia curou seus traumas se conectou com a sua missão pessoal. Seu ativismo está em mobilizar campanhas para redução do poder das mídias sociais, especialmente no cuidado com adolescentes e jovens. Louvável e necessário, mas novamente sinto falta de pessoas ultra-influentes como ele tocarem mais na ferida que de alguma forma vai mexer na zona de conforto das indústrias de seus amigos. E isso tem a ver com decrescimento da economia e fazer fluir recursos financeiros par a justiça climática no mundo.

Na minha visão, frente à tragédia escalada que está diante de nossos olhos nesse planeta, colocar o drama da perda de biodiversidade em oceanos e florestas no epicentro do debate, dar a devida atenção para a crise hídrica e alimentar no mundo são temas mais emergenciais do que IA e mídias sociais e sim pensar estrategicamente a economia da floresta em pé, é a prioridade.

“Não estamos podendo falar mais em Emergência Climática aqui nos EUA.” Escutei isso de mais de uma pessoa nessa semana em NYC. Suspeito que a pressão política (quase parecendo uma censura ditatorial) gerada pelo governo Trump pode ter influenciado a baixa frequência de termos como Justiça Climática, Créditos de Biodiversidade, Empreendorismo da Sociobiodiversidade, restauração ecológica no evento.

Ainda assim, o saldo é extremamente positivo! Sou extremamente grata ao convite feito pela Ana Marina de Castro, coordenadora do Nexus Brasil e pelo acolhimento sensacional de toda a equipe Nexus. Nossa Mata Atlântica, tão invisibilizada fora do Brasil, foi representada com toda a potencia e inspiração dos projetos, programas e centro de pesquisa que estamos sustentando ao longo dos últimos 10 anos no Instituto Terra Luminous, na floresta com a maior diversidade de árvores do estado de São Paulo (segundo a pesquisa NewFor/ESALQ-SP).

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